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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Parco esboço

Desenho lentamente o contorno do teu rosto:
sempre me vem à mente aquele sorriso
espesso e morno, leite quente
aquela pele amaciada pelo contato permanente
com o vento e o por-do-sol
e estes olhos muito abertos, fixados sempre à frente
irradiando rara luz, faróis sobre um atol
Desenho teu rosto a lápis
porque um esboço segue o outro, incontinente
e não chego a uma conclusão da tua boca, oferecida
como uma rosa que dorme, enternecida, num vaso de cristal
A linha do teu queixo, muito reta,
e tua testa larga, umidecida
por uma fonte estranha e secreta
de onde brota, quase pressinto, a seiva da tua vida
as pálpebras pesadas, de noites prolongadas
que quase adormecem sobre a retina comprimida
Desenho o teu rosto porque não posso ter
o deleite de tocá-lo sem me acontecer
de novamente ser tomada pelo destempero
de abandonar de vez o esboço pelo teu corpo inteiro.

Roleta russa

Você não deveria me deixar partir assim, tão tonta, tão solta no nada,

porque afinal um dia eu dei pousada ao seu coração

me deixar assim, com os olhos embaçados e estas imagens difusas

de retratos instântaneos de nós dois, dentro do carro, embaixo de chuva, na noite calada

me deixar sem referências...até minhas preferências estão associadas

ao que você gosta e aprova

Eu, que fico tão sem sentido quando não me sinto amada

me deixar assim, nesta cama grande demais, neste quarto frio demais, neste vazio

e sabendo de mim como sabe, que me ressinto diante da menor saudade

Eu, que já fui espaço do seu sonho, repouso do seu cansaço, seu festejo

me vejo, de repente, borboleta desalojada da crisálida,

com asas ainda por desvendar

Você não deveria se precipitar - e se você descobre

que a nuvem que encobre o sol se desfez e, num lampejo,

reaviva-se por mim o seu desejo, como é que vai me achar

no meio do redemoinho, nas curvas deste longo caminho,

que se abriu a nos afastar...

Saberá encontrar meu rastro, recordará meu perfume, meu lume

e, se estarei esperando o fim da tormenta, sedenta, ainda, de você

Vai se arriscar

vai me testar

vai brincar, uma vez mais, com a sorte...

Porta de saída

O meu cabelo me incomoda, de encontro ao vidro, me cobrindo o rosto

me incomoda o vidro que me espelha, baça visão de quem eu fui um dia,

me incomoda e me alivia, no entanto, ter esperado mesmo sabendo que viria

aquela resposta seca, aquela choradeira,

aquele medo insano, aquela cadeira

vazia,

dia e noite, num canto.

O meu joelho me incomoda, doendo sem razão, me dificultando o passo,

me incomoda o passo dado com vacilo, andar meio atrapalhado do meu desatino

me incomoda e me alivia, entretanto, sair daqui agora, sabendo o bem que faço

ao deixar um espaço para um outro alguém.

O meu olhar me incomoda, fixado neste ponto da história, congelado na memória

me incomoda não descartar de imediato a coisa, ato por ato,

me incomoda e me alivia, por enquanto, ter deixado a covardia do lado de fora

e assumido, que o melhor que faço,

é mesmo ir embora.

Cilada

Inverto a polaridade - adoro uma novidade - deixo você no ar

desmancho o que havia feito, invento um novo defeito, só pra lhe provocar

não dou tempo ao estio, mudo de novo meu cio, agora sou eu a caçar

Redijo um novo contrato, repenso se fico ou se passo, mexo com seu equilíbrio

me visto quando despida, escondendo, embaixo da sua vista, o segredo pra me domar

no claro, fecho os olhos, no escuro delato as pupilas, só vejo o que desejo

Você gosta de surpresa e comigo, com certeza, nunca sabe como vai acabar

me despeço sem estardalhaço, nunca me prende um abraço, não tem nada que me compre

pra você só apareço quando estou sem endereço pra de novo me mudar

A vida me foi generosa, me presenteou, dadivosa, com um veneno que corrompe

mas se ficar assustado, basta ficar bem calado, deixa que vou lhe guiar

conheço muitos caminhos e não sou de poupar carinhos quando disposta a agradar.
Num recôndido de estrelas, escondi, nos entrelaces de um poema, todas as minhas velhas faces. Depositadas no infinito, banhadas num beijo proscrito, resolvo sepultá-las. Já eu mesma não podia, em plena luz do dia,conviver com tal impasse:um amor já natimorto, merece outro desgosto?! Carpe diem. Que repouse, em face de minha maior alegria: um disfarce.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Tudo cabe na canção

Uma nota só compõe a música de minha vida.
Uma nota bem marcada, bem definida.
Uma vez postada a nota,
empresta sonoridade sofrida ao desdobrar desta pauta
onde se entoa o momento.
Clave diante da porta, barrando do som a saída.
Mexendo muitos compassos, traço um espaço seguido de um valsar quase ensaiado,
num ritmo improvisado pra dar gosto a esta desdita.
Apenas sonho o instrumento - e a minha platéia entretenho.
Mas o ritmo, embora escasso,
não me permite descaso - tomo os parceiros nos braços e reescrevo a canção.
Uma nota só entoo, mas faço estender a emoção até os confins do espaço,
até que no total cansaço me surpreenda sinfonia,
de uma única melodia,
numa eterna composição.
Diante de minha janela, mora outra janela cinza. Por mais que o dia colora, ela não muda de tom. Seu vidro está sempre embaçado, o que faz ver o mundo nublado e as formas sem definição. A janela não abre nem fecha, permite só uma brecha pra que o sol não se atreva. A cortina, desbotada, pende, desanimada, sobre o peitoril sem flores. Quantas janelas na vida. Quantos vidros sem clareza. Quanta oportunidade perdida...