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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Porque eu gosto de pássaros.

O pássaro morto é preto, é grande, é frio.

Não vejo nele sinais de menino, de gato ladino, de alçapão.

Ali, sobre a grama,parece ter sido acomodado por uma invisível mão...

Jamais saberei o que o vitimou. Em minha mente inquieta, apenas posso desfiar supostas possibilidades:

seu olho vidrado, ficou fixado no galho que nunca alcançou

na sua retina reflete-se a luz que, repentina, em meio a um rotineiro voo, apagou

sua asa, forte, experiente, quedou-se,repentinamente silente, e em pleno ar o bater cessou

alguma estranha doença, sem marcar-lhe a aparência, na sua garganta a mávia voz calou

ou só estava cansado de tanto voo travado, de canto mesmo engasgado, das fugas de todo dia,

e a morte se apresentou.

O pássaro aconchega-se num ninho de galhos secos, tramados pela ciência do ventos matinais e das curriolas das águas

Numa promessa de longos pousos ao sol, de sofridas noites de tempestades, numa busca incessante de comida para dar continuidade aos filhotes

o pássaro repousa

E aqui minha singela homenagem a uma, entre tantas existências,

que passa sem registro pelos anais da Humanidade
O homem caminha na terra como quem não mora ilhado.Todo recurso é limitado.Mas sendo fechado em si mesmo, usa tudo descuidado: mata bicho, fere floresta, sangra a nascente do rio, fecha a boca da cachoeira, polui o que era sagrado. E aflito, ao final do dia,grita aos céus,desesperado: "- Por que me abandonou o Senhor?" É, está é difícil pra Deus, coitado!Para o filho oferece fartura, mas ele se faz de vitimado...
Dias me chegam, trazendo em si, um quê de rancorosa saudade. Presa sou de seu enredo, meio sofro, meio ao enlevo, da recordação querida. Se me chega assim, dorida, é porque, na despedida, não se deu toda a verdade. Ficaram beijos renegados, abraços por serem dados, palavras por serem ditas...
Me ensurdece este silêncio brotado dentro em mim.Outro tempo,outro espaço,outra proposta.É preciso calar a alma para se escutar assim:o compassar aveludado do sangue sendo levado aos meus recantos selados,as batidas tão calientes são as brasas incandescentes - meus glóbulos cor de carmim pulsando cárdio músculo,o ar que põe e retira meu início e meu fim.Me sinto tão viva,que toda a hora está morta:vivo só para mim.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Maré alta

As vertigens voltaram - respiração ofegante, suor abundante,
ausência, estranhas imagens
Voos sem pouso, cabeça sem amparo, flores de maio em agosto
Ao observar meu próprio rosto, me traio:
estampado no olhos o desgosto por mim mesma
Antevejo temporais
As vertigens já não me surpreendem mais
apenas se instalam como aves da estação
e eu já não faço mais o antigo esforço
para recuperar o controle esperado
não ensaio mais falas nem comesuras nem me incomodam as vaias
desta sociedade absurda
Sinto os meus ossos minhas carnes meus nervos
sinto-me toda em entorpecido enlevo
quando me solto na torrente destas complicadas redes
de minhas comoções
As vertigens são tentativas de fuga de um tormento pessoal
forçar-se a sair de si mesmo por um tempo buscando amenizar sofrimentos
que não se podem ignorar.
Pago o preço do meu temperamento desassogado,
do meu amor acelerado, da minha fome de gentes e por novos vendavais.
Sou um navio à deriva, amarrado em seu velho cais.

Pela retina

Noite.
Luz escassa, mulher devassa, impaciência
sirene de bombeiro, alguém canta no banheiro, sonolência
A vida que se turva, a espera além da curva, porta trancada
o gato no telhado, o cão abandonado, a calçada esburacada
Barulhos que assustam, pesoas que estudam, bebida descontrolada
um carro de polícia, um vulto na esquina, um baque surdo
Uma mulher apressada, gente na balada, alguém pixando o muro
lua destonada, bêbado na enxurrada, sono absoluto
Espera da madrugada, vontade de não fazer nada, escuro
melindres de vampiro, povoam-na suspiros, almas penadas
Namoro no portão, comida requentada, lojas fechadas
As vezes faz calor, as vezes falta amor, as vezes chove.
Tudo no mesmo lugar.

Conversa íntima

Venerável senhor, Meu Coração, desculpe vir a estas altas horas o incomodar,
mas é o que seu silêncio me deixou preocupada e, como não estava fazendo nada,
pensei vir por aqui e ver como está...
Sabe, sua porta está fechada e fiz eu mesma, uma força danada, pra desemperrar
já nos conhecemos há algum tempo e se por acaso, algum grande ressentimento,
o fez hibernar assim, erguer um muro, calar sua voz,
sinto que esta situação deveria ser partilhada, no mínimo, entre nós
Afinal, sabe que lhe tenho apreço e o seu descaso com tudo eu não mereço,
uma vez que do resultado disso vou participar!
Olhe, a vida é complicada - amor, então! Nem digo nada,
mas o bom disso é se arriscar! O senhor, certamente, não é lá muito diferente
de outros corações que acompanho e, se ocorre algum dano, acredite,
sempre um jeito qualquer se pode dar!
Mas trancar-se assim pra novas oportunidades, não perceber que a idade de ouro o chama,
e não permitir que seu potencial proclame o que pode proporcionar,
é um crime, um vacilo - na gíria mais corriqueira - uma besteira sem par!
Tem tanto coração por aí carente e desocupado, tanto amor pra ser vivido e provado,
o senhor nem pode imaginar! Então, me desculpe a sinceridade,
mas não tem mais idade pra devanear, chorar pelas ilusões, pelas fantasias.
Já desfrutou de muita alegria, é rico e pleno, tem terreno pra plantar
um querer maduro, seguro, sem arrependimentos, um poder, sereno,
de se entregar e viver, sem medo nem culpa, a tal da felicidade.
Dito isso, boa noite, passe bem, não se esqueça de que lhe quero bem
e de que espero
alguma boa novidade.