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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Voo bento

ah, ave santa de força tanta
que eleva a si mesma do chão.
esplendor de dúbia plumagem
imagem hipnótica que rouba à paisagem
fascínio maior - criatura de vento
sopro que sobe ao momento de gozo do pensamento
-férreos ossos, bico adunco, olhos entre espaços
que cobrem as bordas do mundo.
dá-se ao compasso de inaudível melodia
e rodopia, uma valsa nos braços de seu holocausto:
quebra as barreiras entre o céu e a terra e não teme castigos
por sua ousadia em desafiar os abismos e as leis naturais,
fazendo em si mesma eclodir um milagre concreto,
extenso, propenso à se libertar das garras do solo
- um súbito suspiro e já é só impressão essa sua presença.
de coração alardeado arrebata em seu peito acelerado
a vida que tropeça nas coisas do chão.

Eu, passarinho

o vinho estava especialmente bom
- almoço sem gosto as coisas que vão se apresentando.
hoje, eu queria levitar - desafiar a mim e ao universo
cometendo um ato proporcionalmente inverso ao usual
encontro certa resistência quando me dirijo às escadas
(eu já disse que o vinho estava especialmente bom?)
e enquanto subo, lamento minha inexorável condição
de ser preso à terra, ao solo pátrio, ao chão áspero
- fosse por mim, escolheria nuvens pesadas, céus esparsos,
longíncuos horizontes em forma de perfil de laranja.
um espelho de mar, isso! um espelho de mar comporia
minha chegada ao final - aterrissaria aos trambolhões, inexperiente que sou
nesta coisa de voos e pousos dramáticos - isso tem a minha cara!
mas feliz, feliz...
teria descoberto a expansão das asas, a possibilidade passarinho
de ser: nada de credos, cruzes, nacionalidades, cores
eu passarinho - passando pelo céu de cada dia, escolhendo
onde anoitecer.

Cilada

escrevo hoje com medo - tenho receio de azedar o paladar
porque escrevo com aquele nó na garganta que espanca a alegria
aquele desejo amargurado de sair andando e não voltar, sem saber ir
desde quando eu comecei a mascarar esta má digestão?
eu escolhi arbitrariamente malocar os sintomas ou, simplesmente,
sou covarde demais para aceitar que ando de muletas há tempos:
será que eu quero saber? será que acontecem milagres? eu, de novo,
costurando as peças puídas e descoloridas.
como vou me perdoar se sou meu algoz em movimento?
e para voltar a falar de flores, de cores, de leveza
esta pedra cinza amarrada a nó de marinheiro na minha garganta
tem que sair daí. pior: eu tenho que tirar daí!
e foi assim que eu vim parar aqui, fazendo catarse da minha agonia
brigando com este desafio de desatar esta armadilha
que eu armei - e em que eu caí.

Itinerário

notas almiscaradas, um ligeiro enjoo
o forro do sofá que saturou os olhos depois destes anos todos
a tevê insossa, insólita, indecorosa
e este espaço que deveria se chamar lar.
nenhuma identidade - nada ao que se agarrar
tudo como que se tivera colocado ali por si só
vidros volumes de livros relógios de parede e chão
um imenso e frio chão de pegadas desmoronadas dia a dia.
a alma encolhe - sabia? encolhe e se recolhe às entranhas
como se um bicho fuçasse a terra com furor e determinação doentia
- não mais voltar a ver a luz e o dia, mas simplesmente, naufragar na terra,
uma impossibilidade de porto e salvação.
e os olhos são depositários fiéis de águas mornas
e cenas que cortam mais que a palavra mais afiada
(existe o benefício da cegueira para um coração que dorme)
mas estou completamente alerta nesta hora.
são os caminhos trilhas duras e desconhecidas, desconectadas
esparsas como aves perdidas no revoo da troca de estação
- ninguém para gritar seu nome e trazê-lo de volta pra casa
ninguém para marcar a trilha, ou postar sinais
cartas que não serãao abertas - não foram escritas
juras que não serão trocadas - não foram planejadas
socorro - que não virá. não foi ouvido ( emitido?)
e uma noite longa como a vida inteira que acena
do lado de fora desta cela.

Voos

talvez, num dia em que eu não veja, você se vá
e então seus carrinhos permanecerão na prateleira
como testemunhas concretas de sua infância entre meus braços.
um dia assim, com este sol assim, você se irá
me falando, ávido de entusiasmo, da vida que você descobriu
lá fora - além do muro de nossa casa, além da sua bicicleta, além do quarto
uma vida que abraça você como já não posso
e aí eu sentarei naquela poltrona que fica em frente a porta e sorrirei,
desejando com toda essa minha força que restou que você voe,
orando para que estas suas asas
sustentem sua ânsia, sua pulsação, sua fome
- foi quando eu me distraí, um segundo, que você largou a chupeta.
outra distração boba e você comia livros e mergulhava no computador.
mais uma piscadela e os posters embaçaram na parede
- como você é rápido! como eu perdi mais momentos
de dormir com você no sofá vendo desenhos e lendo gibis
(alguém ainda fala "gibis"?)
estou aqui - sempre estarei.
e meus braços, cheios de esperança, cheios de orgulho, cheios de saudade
o enrodilharão a cada retorno, a cada reencontro.
Por enquanto, apenas voe - bem alto.
Hoje, ontem, amanhã - que diferença faz? A vida não tem calendário, horário, chegada e partida. A vida é flerte, é flash, é estampido - a vida, já disse alguém, é pra ser vivida. Se um dia eu tombar em batalha, foi ferida na alma, tenham disso certeza. Em meu epitáfio, desejo apenas a leveza de uma borboleta - as palavras me pesaram demais por toda uma vida. Pode ser uma rica carga, mas dói.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A razão da partida

eu preciso ir
a estrada me puxa a alma me embaça os olhos me refaz
e eu preciso ir
com as costas arqueadas como um cachorro bom
um cheiro de gente estranha, de água nova, de outro verdume
um ponto tão longe que me cansa a vista
mas eu preciso, preciso muito ir
e as rodas do carro derrapam sobre mim mesmo
num medo sem volta sem endereço
porque o mundo me abraça com brasa e ferro quente
e me mostra seus dentes vorazes e nodosos
e, ainda sim, preciso ir
porque não me encontro aqui então vou me buscar
nas beiradas das coisas que se atolarão em meu caminho
e me levarão a desvios e atalhos sem saída
mas me redobrarão o cuidado com os que me amam
pois que, na despedida se apertam os nós
e na distância se perdem as mágoas todas
então
eu vou.