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quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Depois de mim as flores virão, e os passarinhos continuarão a beliscar os frutos. Depois de mim, o sol amarelará as cortinas, queimará meninos no futebol, secará as poças. Depois de mim os rios correrão, no mesmo leito, na mesma rota, dia após dia. Depois de mim, esta lua, este rosto, este silêncio, que varrerá as lembranças. Por isso, sou agora.
Figuras urbanas I
diante da janela, o carroceiro:
tábuas, papelões, restos de panela, vislumbro plásticos dobrados
e um cão - dentro da fidelidade dos dias.
seu rosto traçou todos os fatos, registrou todas as idas e vindas
as ruelas, os becos, as encruzas
uma figura cartográfica, um feito em carne e ossos
uma paisagem de vidas que se sucederam sobre vidas
em forma de singulares camadas.
passos que obedecem a um ritmo interno, cadência da rotina,
rodas e pés que se confundem no homem que deixa-se conduzir
filhos? esposa? tio de alguém? irmão de alguém?
não me atrevo - só observo, constrangida e aflita
porque ninguém nesta vida deveria saborear o prato da amargura
de voltar sem gosto pra casa, pra alguém, pra si mesmo.
tábuas, papelões, restos de panela, vislumbro plásticos dobrados
e um cão - dentro da fidelidade dos dias.
seu rosto traçou todos os fatos, registrou todas as idas e vindas
as ruelas, os becos, as encruzas
uma figura cartográfica, um feito em carne e ossos
uma paisagem de vidas que se sucederam sobre vidas
em forma de singulares camadas.
passos que obedecem a um ritmo interno, cadência da rotina,
rodas e pés que se confundem no homem que deixa-se conduzir
filhos? esposa? tio de alguém? irmão de alguém?
não me atrevo - só observo, constrangida e aflita
porque ninguém nesta vida deveria saborear o prato da amargura
de voltar sem gosto pra casa, pra alguém, pra si mesmo.
Figuras urbanas II
passo todos os dias pelo pipoqueiro
- pombas cercam-no como meretrizes afoitas
nada vejo nele que não me recorde um tio querido,
um parente amado, amigo de casa já
porque entre suas coisas colorem-me balas, amendoins, saquinhos
e lá por dentro da grande panela a suprema diversão:
o barulho gostoso e alardeante dos saltos e estripulias,
o aroma de cinema durante a semana, a retomada brusca da infância
num e noutro mastigo crocante deste milagre branco
- poderia fazer nevar, o pipoqueiro,
uma neve nossa, tropical e atrevida
que alagaria as ruas de risos e de assombro!
e por uns instantes, talvez,
meninos esqueceriam a fome e velhos abandonariam a idade
para correrem, como as pombas, entre as pedras da rua cinzenta.
- pombas cercam-no como meretrizes afoitas
nada vejo nele que não me recorde um tio querido,
um parente amado, amigo de casa já
porque entre suas coisas colorem-me balas, amendoins, saquinhos
e lá por dentro da grande panela a suprema diversão:
o barulho gostoso e alardeante dos saltos e estripulias,
o aroma de cinema durante a semana, a retomada brusca da infância
num e noutro mastigo crocante deste milagre branco
- poderia fazer nevar, o pipoqueiro,
uma neve nossa, tropical e atrevida
que alagaria as ruas de risos e de assombro!
e por uns instantes, talvez,
meninos esqueceriam a fome e velhos abandonariam a idade
para correrem, como as pombas, entre as pedras da rua cinzenta.
Figuras urbanas III
vassoura em punho o gari varre
junto de folhas, papéis, gimbas
seu dia - as ruas são corredores contíguos
e as images ao redor compõe um ruidoso cenário
que vai se atropelando e misturando aos restos varridos:
- o que vai no saco, na caçamba, na retina
possui a mesma impermanência, a descartabilidade
de um dia a mais.
um gole de água, a camisa ao corpo aderida, a flor da vida
que se abre em oportunidades de sonhos
entre um e outro recorte de jornal encontrado
em meio ao tudo e ao nada que se embaralha pelo chão
- o pó de pedra e a sua unidade crua.
vez por outra, sobem os olhos e lhes mordisca o sol
mas se é a chuva que surpreende a tarde em seu morno estado,
correria! o uniforme não poupa do frio aguado
de mais uma hora, mais um momento, ou uma varrida
pelas ruas das grandes avenidas descortinadas.
junto de folhas, papéis, gimbas
seu dia - as ruas são corredores contíguos
e as images ao redor compõe um ruidoso cenário
que vai se atropelando e misturando aos restos varridos:
- o que vai no saco, na caçamba, na retina
possui a mesma impermanência, a descartabilidade
de um dia a mais.
um gole de água, a camisa ao corpo aderida, a flor da vida
que se abre em oportunidades de sonhos
entre um e outro recorte de jornal encontrado
em meio ao tudo e ao nada que se embaralha pelo chão
- o pó de pedra e a sua unidade crua.
vez por outra, sobem os olhos e lhes mordisca o sol
mas se é a chuva que surpreende a tarde em seu morno estado,
correria! o uniforme não poupa do frio aguado
de mais uma hora, mais um momento, ou uma varrida
pelas ruas das grandes avenidas descortinadas.
Figuras urbanas IV
bom dia! boa tarde! boa noite!
e corre para abrir a porta pra d.Ana, coitada,
que a porta é um peso só, e ela, fraquinha, pequena
vixê! lá vem a empregada do 201, com aquela saia que não pára quieta no lugar
ela bem que gosta de fazer a saia dançar: vai lá, vem cá, vai lá
ah! que isso lhe valeria uns bons duns beliscões da atenta esposa!
e a danada da menina bem que ainda manda uns olhares de soslaio... BÉIMMMMMMM!
susto com interfone, sempre, não se acostumará nem em mil anos
- severino, a luz aqui do corredor apagou! o síndico tá no prédio?
-tá ainda não, d. Márcia, mas deixe que deve ser bobage,subo aí e troco a lâmpada
-ok, mas não demore por favor!
péssima hora pra deixar a portaria sozinha, seu Claúdio tá chegando
se pega portaria sem ninguém vai di-re-to no ouvido do síndico, danêra!
olha triste, magoado mesmo, o celular que,
num silêncio sepulcral o dia inteiro, Amelinha não tocou pra ele
mas Deus me valha que lá vem descendo a empregada do 201 e aquela saia
ô, saia desassossegada, meu padim!
e corre pra abrir a porta do elevador pra d. Alice sair com o cachorro,
e socorre seu Paulino com as tantas sacas,
e atende o interfone pra ouvir d. Márcia reclamar
bom dia! boa tarde! boa noite!
e corre para abrir a porta pra d.Ana, coitada,
que a porta é um peso só, e ela, fraquinha, pequena
vixê! lá vem a empregada do 201, com aquela saia que não pára quieta no lugar
ela bem que gosta de fazer a saia dançar: vai lá, vem cá, vai lá
ah! que isso lhe valeria uns bons duns beliscões da atenta esposa!
e a danada da menina bem que ainda manda uns olhares de soslaio... BÉIMMMMMMM!
susto com interfone, sempre, não se acostumará nem em mil anos
- severino, a luz aqui do corredor apagou! o síndico tá no prédio?
-tá ainda não, d. Márcia, mas deixe que deve ser bobage,subo aí e troco a lâmpada
-ok, mas não demore por favor!
péssima hora pra deixar a portaria sozinha, seu Claúdio tá chegando
se pega portaria sem ninguém vai di-re-to no ouvido do síndico, danêra!
olha triste, magoado mesmo, o celular que,
num silêncio sepulcral o dia inteiro, Amelinha não tocou pra ele
mas Deus me valha que lá vem descendo a empregada do 201 e aquela saia
ô, saia desassossegada, meu padim!
e corre pra abrir a porta do elevador pra d. Alice sair com o cachorro,
e socorre seu Paulino com as tantas sacas,
e atende o interfone pra ouvir d. Márcia reclamar
bom dia! boa tarde! boa noite!
Figuras urbanas V
no vidro largo e espesso balançam um rosário gasto
e um promissor sapatinho de bebê.
a idosa o olha desconfiada e atrevidamente: sabe seu direito
e resmunga para um rapazinho que aquele é um lugar reservado
ele volta sua atenção aos inúmeros veículos impacientes que o cercam
buzinas atordoantes e vacilantes bicicletas, à moda de frágeis libélulas
vêm sem aviso, de todos os cantos
o cansaço reclama sua cota do dia e suas costas doem
pois afinal doem-lhe também as pernas, longas demais para espaço de menos.
a cada toque da campainha, o imediato reflexo, o reconhecido ponto,
o adestramento eficaz.
rasga o motor uma lamúria estremecente, quase o comove
a caixa de marcha que reclama a graxa e os cuidados de anciã.
não comeu bem, olha impaciente o relógio
enquanto aquela campainha de levantar defuntos do asfalto
ressoa ameaçadora dentro da sua cabeça.
afrouxa a gravata - que o fiscal não o veja
pega, fora do ponto, uma grávida exaurida - Deus há de compensar
mas se não compensar...que é que há? também tem mãe.
poderia morar dentro daquele uniforme, daquele motor, daquela garagem
tanto o tempo que passa entre as engrenagens e pneus
esta noite dormirá pesado, como os sulcos de seu ônibus sobre o asfalto.
e um promissor sapatinho de bebê.
a idosa o olha desconfiada e atrevidamente: sabe seu direito
e resmunga para um rapazinho que aquele é um lugar reservado
ele volta sua atenção aos inúmeros veículos impacientes que o cercam
buzinas atordoantes e vacilantes bicicletas, à moda de frágeis libélulas
vêm sem aviso, de todos os cantos
o cansaço reclama sua cota do dia e suas costas doem
pois afinal doem-lhe também as pernas, longas demais para espaço de menos.
a cada toque da campainha, o imediato reflexo, o reconhecido ponto,
o adestramento eficaz.
rasga o motor uma lamúria estremecente, quase o comove
a caixa de marcha que reclama a graxa e os cuidados de anciã.
não comeu bem, olha impaciente o relógio
enquanto aquela campainha de levantar defuntos do asfalto
ressoa ameaçadora dentro da sua cabeça.
afrouxa a gravata - que o fiscal não o veja
pega, fora do ponto, uma grávida exaurida - Deus há de compensar
mas se não compensar...que é que há? também tem mãe.
poderia morar dentro daquele uniforme, daquele motor, daquela garagem
tanto o tempo que passa entre as engrenagens e pneus
esta noite dormirá pesado, como os sulcos de seu ônibus sobre o asfalto.
Partitura solitária
vejo o mundo como por um vidro
como quando em criança se cobiça biscoitos:
de onde me vem tanta fome, tanto espaço
pra comportar mais gente, mais dores, mais outros espaços?
e estou sempre esperando, como uma amante rendida,
que ele me surpreenda, que me presenteie me levando às lágrimas.
me adorno para ele: rugas, peles, cicatrizes - e por ele
me desfaço em memórias que alguém apagou
(ou se apagarão, fracas lamparinas, tênues estrelas)
mas dele, ao contrário de todos os outros, não me canso nunca
seria o mundo a minha alma gêmea?
dele tive tantos filhos, que já não posso dar conta
- todos paridos a custa de experimentos e expectativas
muitos sonharam causas, outros nasceram mortos, ainda tive prematuros
anseios de voos e escaladas infrutíferas
e de nada me arrependo - nada, entende isso?
como se fosse um rio, que voluntariamente
some no mar.
como quando em criança se cobiça biscoitos:
de onde me vem tanta fome, tanto espaço
pra comportar mais gente, mais dores, mais outros espaços?
e estou sempre esperando, como uma amante rendida,
que ele me surpreenda, que me presenteie me levando às lágrimas.
me adorno para ele: rugas, peles, cicatrizes - e por ele
me desfaço em memórias que alguém apagou
(ou se apagarão, fracas lamparinas, tênues estrelas)
mas dele, ao contrário de todos os outros, não me canso nunca
seria o mundo a minha alma gêmea?
dele tive tantos filhos, que já não posso dar conta
- todos paridos a custa de experimentos e expectativas
muitos sonharam causas, outros nasceram mortos, ainda tive prematuros
anseios de voos e escaladas infrutíferas
e de nada me arrependo - nada, entende isso?
como se fosse um rio, que voluntariamente
some no mar.
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