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segunda-feira, 24 de março de 2014

Chuva boa

Chove hidratando a ressequida cutes da terra amorosa, chove dando de beber às matas virgens e às devassadas, chove para os cães de pendentes línguas vermelhas, chove para o assombro e deleite do sabiá laranjeira. Chove para que o rio engorde, para que o milho engrosse, para que se assossegue a poeira. Chove para lavar a pele salgada, chove para reavivar as cores da velha calçada, chove para dar pingadeira nos galhos do cipreste torto, chove para turvar, de novo, a paisagem distante. Chove para que se enlameiem as crianças e barquinhos de papel retomem a rota. Chove. E abençoada seja a água que nos lava a Alma diante da morte empedernida que outrora debochava do céu. (Bete Amorim)

Tempo, tempo, tempo, tempo...

Que desperdício de tempo, essa distância entre nós. Um valioso momento e se desfaz, como açúcar nessa água. Um doce querer fica a boiar, entre a promessa e tempo que se esvai, como uma vela cansada. Que desperdício de tempo, essa música cantada só para as paredes, entre os dentes, sobre as janelas que contemplam uma não chegada. E eu e todas essas cosias belas e mornas que me doem o estômago e tremulam minhas mãos... (Bete Amorim)

Cartas para o meu eu II

É preciso que usemos algumas linhas para dizer dos enganos bem rotineiros da alma. Mariposas enebriadas pela luz, tomamos por precioso algo indevido, no momento em que estamos à deriva. Como esse pobres insetos volitantes, permitimos que a falsa claridade seja tomada pelo grandioso sol, que nos aquece e alimenta. Mas é apenas uma fina lâmpada, num fosforecer temporário. E se muito ali nos entretemos, nos detendo apreciando uma transitória beleza, o dia lá fora desponta e desprevenidos nos alcança, e nos vemos acuados, confusos e sem rumo, roubados em nossa estranheza por uma luz que mais não há. Assim tantos caminhos, mestres, doutrinas, "amigos", vernizes, nessa nossa surpreendentemente e tão veloz existência, nos roubam preciosos momentos, dias, anos. A que se velar, atentamente, por nossos pensamentos, para que não se envaideçam e se entreguem às luzes aparentes, transitórias e traiçoeiras, pelas tantas avenidas do roteiro da vida, antes que percebamos quanto tempo vão foi dedicado ao redor do que era, tão somente, uma simples lâmpada, num teto qualquer. (Bete Amorim
Raízes amargas
Me odeia nada. Me ama, tanto, que me carrega nos olhos, ficando empregado de um quê que ninguém decifra. Me ama tanto, que não dorme sem sonhar comigo, jeito desesperado de me manter por perto. Me ama tanto, que as pernas lhe faltam quando cruza com alguém na rua e pensa, por breve momento, que possa ser eu. E aí, aí a dor da decepção, tentando, em vão, calar o coração que antes cantava. Me odeia que nada! Me ama, de maneira tão inconfessa, tão culpada, que morde os lábios de tirar sangue, com medo, quando acompanhado de outro alguém, pronunciar na hora do fogo do amor, o meu nome... meu nome. Me odeia nada. Me sufoca como uma coisa banida, me amaldiçoa como uma coisa bandida, me encobre como uma coisa que mancha, uma cicatriz feia, uma lembrança má. E depois, cheio de culpa e remorso, vai correndo me buscar no fundo da mente, no mais profundo da sua dor, do ápice do seu desejo. Me odeia? Nada. Me carrega como quem esconde um tesouro, sepultado nas areias do tempo da sua Alma. E luta pra não esquecer minha voz, meu cheiro, meu toque, meu olhar. Só odeia o tanto de me amar. (Bete Amorim)
Amor da minha Vida...
Beijei você inúmeras vezes, sem não nos termos tocado; levei você à todos os lugares que conheci, todas as paisagens que visitei, todos os altares em que dobrei meus joelhos. Dormi com outro mordendo os lábios para que seu nome não me fugisse, sussurrei-o dentro da noite mais escura quando me vi muito só, e afagava, a mim mesma, vibrando em sua presença. Você trocou de rosto comigo tantas vezes no espelho que me perdi, me despiu tantas vezes sem o saber que me machucou a pele, me contou coisas que nem você sequer sabe. E criou comigo os filhos que não tivemos, dançou comigo nas festas em que não fomos, riu comigo das bobagens corriqueiras de quem sempre está lá. Você nem imagina quantas vezes nos casamos e você chorou ao dizer "sim". Bem, chorei também. Você mora comigo ocupando um espaço que lhe ofereço, todos os dias. E eu, somente eu, amei por nós dois e vivi uma vida em que nada nos separaria. Você meu sonho perfeito - por isso, e só por isso, não passou de um sonho. (Bete Amorim)

terça-feira, 5 de março de 2013

Eu me confesso devota de nós dois. Postos num altar do meu coração, flexiono os joelhos e fico observando as muitas montanhas que removemos; os mares que atravessamos engolindo sapos, cobras, lagartos, jacarés; os dias em que houve abundância de medo e sobra de lágrimas; os braços unidos como correntes de aço e seu olho pregado no meu, pra não me deixar soçobrar; as nuvens negras que trocaram nossos dias por noites densas, mas que rasgamos a unha e recuperamos nosso calor de direito. Eu me lembro das muitas vezes em que você não estava lá. Lembro também das vezes em que você caminhou sozinho e descrente. Depois, tem a gente de volta à gente, e tudo de novo, renovado e vingado do chão, com um tanto de saliva, um tanto de suor, um tanto de alegria ingênua que vaza pelos poros durante o amor que exaure, mas também acalma. É. Eu sou devota de nós dois, porque não acreditamos em almas gêmeas, mas tantas e tantas vezes nos confundimos, como quando nos fundimos num filho, onde posso ver eu e posso ver você. Nada de perfeito. Nada de instável. Apenas humanamente realizável. Até onde der. (Bete Amorim)
Hoje, ah! hoje é dia de gira, hoje se reza o terço, canta-se a ladainha, hoje se unge a testa, hoje afasta-se às pressas o olho gordo, a vida magra, a praga encomendada, o trabalho feito, a coisa que tá ruim, a dor nas cadeiras, na cabeça, na encruza, debaixo do poste, de dentro da cuia, da circunferência da lua, na cadência das estrelas. Hoje é dia de incenso, bom senso, cancioneiro, aguadeiro bento em escadas e balcões, dia de soltar rojões, tomar benção ao santo, debruçar sobre a medalhinha, ler nas entrelinhas das mãos, dos pés, das rugas, das lutas e passadas pelos apertos que vivencia todo cristão, espírita, espiritualista, umbandista, judeu, budista... Axé, meus irmãos! Shalom! Namastê! (Bete Amorim)